POLÍTICA

20/10/2020 as 15:38

Mussuca: comunidade quilombola em Laranjeiras luta para manter tradição

O bairro tenta preservar seu modo de vida no coração da uma das cidades mais importantes do estado.

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Localizada em Laranjeiras, a Mussuca surgiu no período escravocrata e se desenvolveu em meio a um contexto de lutas e marginalização do povo quilombola. No início o quilombo foi habitado por poucas famílias, que vivam nas terras de Maria Benguela, com o tempo e com aumento no número de famílias observou-se uma mudança na formação do espaço e da paisagem do povoado.

Com o crescimento dessas famílias e a chegada de novas, o espaço passa a ser uma área de resistência. Nas terras, os escravos cavaram um buraco que servia de fonte de água para os moradores, onde encontraram um animal preto chamado "mussum", e assim surgiu o nome Mussuca.

Segundo os locais, as terras da Mussuca foram doadas a uma escrava pelo próprio senhor, que teria decidido libertá-la pouco antes de morrer. O local serviu de refúgio aos que conseguiam escapar dos engenhos da região e também abrigou negros fugitivos em marcha para Palmares, dessa forma foi se erguendo o maior quilombo de Sergipe.

Depois da abolição, muitos voltaram a trabalhar nos canaviais, outros empregaram-se nas pedreiras ou nas fazendas de sal. As mulheres que não foram absorvidas pelo mercado local, aprenderam a ganhar a vida por conta própria, enfiando os pés no mangue para pescar camarão e siri, e assim criaram uma atividade que tornou-se responsável por pelo menos parte do sustento das famílias: a pesca.

Cercada pelos rios Sergipe e Cotinguiba, com influência de marés, a região apresenta forte existência de manguezais, espaços de grande importância onde essas mulheres desenvolvem suas atividades de pesca e garantem a subsistência. Nesse ambiente, a atividades de pesca é tradicionalmente realizada por mais de 50% dos que ali vivem e tem grande importância na reprodução das famílias.

Muitas dessas pessoas que se declaram pescadores e quilombolas, também desenvolvem atividades de agricultura de alimentos, plantando nos seus quintais: milho, feijão, fava, quiabo, abóbora, mamão, macaxeira, dentre outras espécies. Grande parte das famílias também complementam a renda com os programas sociais à exemplo do bolsa família, considerando que a grande maioria é de baixa renda.

 

O resgate das tradições 

A escravidão se foi, mas a luta pela preservação da cultura e contra o preconceito continuam. Décadas atrás, a população da Mussuca era majoritariamente negra, com a miscigenação hoje em dia se encontram poucos mestiços e é bem difícil encontrar alguém de pele muito clara. Por isso, as manifestações e tradições da população negra ainda são presentes.

Como dizem os cantos do Samba de Pareia, "Na Mussuca eu nasci,na Mussuca me criei, com o Samba de Pareia, na Mussuca eu morrerei. Ô cadê o samba, oi ele aqui…"

Sempre que nasce um bebê na comunidade o pessoal do Samba de Pareia tem a missão de homenagear a mãe e a criança, dançando e tomando meladinho, bebida tradicional da região preparada com mel de abelha, canela, arruda, cebola branca e cachaça. 

É assim desde o primeiro parto, quando o povoado ainda era um quilombo. O Samba de Pareia é dançado aos pares, que se alternam conforme a evolução da música. Antigamente era executada por casais, mas a troca de posições deixava os homens enciumados. Para evitar confusão, agora só as mulheres participam. Os homens ficam em volta para bater os instrumentos.

Samba de Pareia. Fonte: blog lugaresdememoria

Já a dança de São Gonçalo é formada somente por homens quase todos com roupas de mulher, os rapazes se vestem assim em alusão às prostitutas. Segundo a lenda, o santo marinheiro tirava as mulheres "da vida" por meio da música e da dança. 

A Mussuca é conhecida principalmente pelos grupos folclóricos. Além do Samba de Pareia e do São Gonçalo, tem ainda dois grupos remanescentes do período colonial: Samba de Coco e Reisado. Mesmo sem apoio e valorização a comunidade ainda realiza apresentações e rituais, tentando preservar sua história e identidade.

 

Comunidade certificada

Os direitos adquiridos pelos quilombolas na Constituição de 1988 raramente são respeitados. A lentidão na titulação de terras é um problema que atravessa todos os governos desde a redemocratização.

A primeira titulação aconteceu somente no fim de 1995. E, desde então, o governo federal titulou apenas 42 terras quilombolas. A grande maioria das titulações foi feita por governos estaduais.

Hoje a Mussuca possui, aproximadamente, mil famílias, totalizando uma população de 2.400 pessoas. Por ser certificada, é automaticamente incluída no programa Brasil Quilombola, que prevê uma série de projetos como regularização fundiária, infra-estrutura e serviços, desenvolvimento econômico e social e controle e participação social.

Apenas as comunidades reconhecidas podem ser atendidas e receber os benefícios oferecidos pelos convênios com ministérios do Governo Federal tendo disponíveis as ações e serviços nas áreas de educação e saúde. Com a certificação, as comunidades quilombolas também têm a terra desapropriada pelo Incra passando a ser os donos.

 

O futuro da Mussuca

Apesar de receber suporte Federal, isso não significa que a prefeitura municipal não tem responsabilidade com a comunidade. De acordo com populares, a gestão atual e as anteriores são avaliadas negativamente no que diz respeito a atenção na prestação de serviços por parte do poder público municipal.

Segundo a moradora Mariclecia Batista o descaso não é de agora, vem de muitos anos de falta de uma maior atenção, sobretudo com as pessoas mais pobres que apresentam maior fragilidade social. "Queremos mudança, as gestões anteriores prometeram melhorias e nunca cumpriram, espero que na próxima eleição um candidato que traga infraestrutura, educação e saúde para nós seja eleito", ressaltou.

Para outros entrevistados, o sentimento é de negligência com aqueles mais pobres. De acordo com um morador que não quis se identificar os representantes do município só aparecem nos períodos de campanha. "Vem candidatos a prefeito e passam na casa da gente prometendo o céu. A gente só queria mais trabalho, uma rua sem esgotos e geração de emprego pros nossos filhos", pontuou.

Candidato a prefeito Zé Bodega. Fonte: Facebook

Diferentemente do discurso de outros gestores, o candidato a prefeito de Laranjeiras Zé Bodega (Cidadania) pontua que têm se deparado com a realidade da população de Mussuca. "Em nosso projeto existem sete obras para região, incluindo criação de posto de saúde, quadra de esportes, moradia, e também um galpão onde a população quilombola possa expôr seu trabalho, resgatando sua cultura e gerando emprego e renda". afirmou Zé.

"A Mussuca tem grande potencial turístico, muitas pessoas procuram comunidades quilombolas para visitar e chegando lá não tem nada, precisamos fazer com o que esse potencial se transforme em emprego e renda para a população local", relata a candidata a vice-prefeita Ceiça.

 

 

Por Hellen Tereza

 

 

 

 




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