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29/06/2020 as 08:33

Referendo de Putin busca legitimar manobra para manutenção do poder

Referendo de Putin busca legitimar manobra para manutenção do poder

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No eterno retorno das simbologias políticas, algo de muito errado acontece quando há a conjunção entre Vladimir Putin e bonecos. Em 2002, o canal NTV, recém-comprado pela gigante energética estatal Gazprom, teve de tirar do ar o popular programa de sátira Kukli (bonecos, em russo).

Putin, então um jovem presidente no segundo ano do mandato, aparentemente não gostava do boneco que o representava no vídeo.

Quase 20 anos depois, à beira do fim de mais um ciclo do putinismo, foi a vez de uma coleção de bonequinhos do grupo ativista Vesna (primavera).

No domingo passado (21), o grupo espalhou Pokémons, Trolls e Pequenos Pôneis por marcos de São Petersburgo. Fotografou-os com minicartazes protestando contra o referendo que irá definir se Putin poderá ficar no poder após 2024, quando expira o que hoje seria seu último mandato legal.

"Esse plebiscito [o referendo] é um brinquedo para nós", dizia um dos textos, sobre a votação de quarta-feira (1º).

Duas décadas depois, contudo, a reação foi mais dura do que um telefonema chateado de um burocrata do Kremlin.

"A polícia foi até a minha casa para saber qual minha filiação civil, partidária", contou à rádio Eco de Moscou, do mesmo grupo do qual a NTV foi comprada, a ativista Sonia Uliacheva.

O absurdo da situação exemplifica o clima político em torno do referendo, bolado após o Parlamento da Rússia e a Corte Constitucional (o Supremo local) aprovarem o plano delineado por Putin em janeiro deste ano.

O pacote, que altera 14 pontos da Carta modificada pela última vez em 1993, tem um pouco de tudo. A começar por uma série de populismos, como a indexação à inflação de benefícios e aposentadorias.

A coisa começa a tomar rosto com o poder de intervenção no Judiciário, de resto já alinhado ao Kremlin. As emendas permitem a Putin sugerir a demissão de juízes, além de cortar a Corte Constitucional de 19 para 11 membros.

Os valores do conservadorismo putinista, que os marqueteiros do poder definem como o senso comum do russo médio, são entronizados.

Casamento, só de homem com mulher –gays já não podem se unir legalmente no país, de todo modo. A história russa é sagrada, na versão triunfalista vigente, é claro. E a pátria teme a Deus, um agrado à Igreja Ortodoxa, parceira política do Kremlin.

Mas tudo isso apenas escamoteia o desígnio maior: a permanência de Putin e de seu grupo no poder.

No Kremlin desde que virou premiê em 1999, o presidente buscou dar verniz legalista a seus atos. Putin não mudou a Constituição em 2007 para ser facilmente reeleito uma segunda vez em sequência, preferindo indicar um preposto.

Assumiu o cargo de premiê do governo do pupilo Dmitri Medvedev, que hoje está na cadeira que o chefe ocupou de 2008 a 2012.

Assim, foi incluída no rol de emendas uma limitação a dois termos para uma pessoa na Presidência. E, "en passant", a definição de que, como a regra muda, é zerada a contagem para quem está no cargo.

Putin, 67, poderá assim disputar o pleito de 2024 e o de 2030, saindo do Kremlin daqui a 16 anos. Em 2028, se estiver no poder, ultrapassa Josef Stálin como líder mais longevo da história moderna do país.

ntes de qualquer coisa, ele precisa que a mudança seja referendada pelo povo no voto, o tal lustre democrático.

Aí entra a polícia no apartamento de Sonia e o cerco aos críticos. "Isso aqui não é uma ditadura, mas o clima é ditatorial, opressivo", diz o cientista político Dmitri Antonenko, de Moscou.

Para ele, as denúncias de pressões sobre servidores públicos para votar e a suspeita de que a votação antecipada, iniciada na quinta (25), possa ser fraudada são vistas com apatia pela população.

Pesquisa do centro independente Levada aponta que 44% apoiam as mudanças, ante 32% contrários e 24% incertos.

Só que o Levada ouve a todos. O centro estatal VTsIOM perguntou só aos que vão votar com certeza, e aí a aprovação sobe a 61%, e a rejeição cai a 22%, com 17% de indecisos.

Para o esquema de poder de Putin, paradoxalmente, a popularidade é central. E ela anda no nível mais baixo de sua vida pública, 59%, segundo o Levada. Assim, o comparecimento alto é vital. O Kremlin quer no mínimo repetir os 67% da reeleição de 2018.

Daí o pedido da oposição para o boicote, liderado por figuras como o blogueiro Alexei Navalni. Se a abstenção for de 50%, a votação é invalidada.

Como não há os usualmente impopulares rivais de Putin para votar, o "não" galvanizou quase todo o campo adversário do Kremlin. Opositores alimentam a esperança de que seja possível quebrar a apatia e dar um recado. Isso enseja, claro, temor de manipulação.

Segundo o grupo Golos (vozes), especializado em transparência, a possibilidade de coletar votos na rua, para evitar aglomerações na pandemia, é um convite a fraudes.

O novo coronavírus já havia obrigado o adiamento da votação, marcada inicialmente para o dia 22 de abril.




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