06/08/2020 as 11:55

Por que pessoas trans incomodam tanto?

Confira a coluna Consciência e (R) Existência dessa quinta-feira, 06

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
Fonte Natura<?php echo $paginatitulo ?>



Na semana passada aconteceu mais uma polêmica envolvendo a participação de pessoas trans na mídia. Sempre acontecem reclamações odiosas quando somos tratadas com respeito em espaços midiáticos, ou em qualquer área da sociedade em que nossa presença é negada e invisibilizada. Para muitos, infelizmente, quem é trans só pode aparecer em contextos estereotipados, sendo motivo de zombaria restrita aos programas de humor.

Dessa vez, o que revoltou algumas pessoas reacionárias, perversas e medíocres, foi a participação do ator Thammy Miranda - um homem trans filho da cantora Gretchen - numa campanha publicitária do dias pais de uma empresa de cosmético. No dia 22 de julho, Thammy postou um vídeo muito fofo brincando com seu filho Bento, dando beijinhos carinhosos, comida e o colocando pra dormir dizendo que o ama. Na descrição do vídeo ele diz: "As melhores lembranças que meu filho vai ter de mim, sem dúvidas, serão das coisas boas que a gente viver junto, seja brincando, sendo amigo, educando.....É essa energia de presença, de estar junto, acompanhando e sendo companheiro que eu tenho e que vou continuar tendo com ele. Ser pai é isso! Estar presente é o melhor presente!"

Qual problema de um homem trans, que é pai, participar de uma propaganda de dias dos pais? Por que isso incomoda tanto? Será que esses perseguidores que usam questões biológicas e religiosas para destilar sua perversidade contra as pessoas LGBTQIA's estão bem consigo mesmo? É muito triste e altamente criminoso o uso de trechos bíblicos de forma distoricida para estimular ódio e deslegitimar as pessoas trans ou qualquer minoria. Essas pessoas refletem o quanto são desumanas, ignorantes e estão revelando mediocridade e monstruosidade em atacar e perseguir pessoas historicamente tão marginalizadas, violentadas e excluídas de vários espaços da sociedade, tendo seus direitos negados e sendo vítimas de toda forma da crueldade humana. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, 90% das travestis e mulheres trans estão compulsoriamente na prostituição e a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil é de 35 anos, conforme dados da ANTRA (Associação Nacional de Transexuais e Travestis).

Mas, apesar do momento difícil que estamos vivenciando, com o aumento de discurso de ódio e perseguição aos direitos individuais, muitas vezes esses ataques acabam tento um resultado contrário ao que nossos perseguidores/as acreditam. No caso de Thammy, a exemplo de outros, percebemos que grande parcela da sociedade não compactua mais com esse tipo de postura altamente cruel de ataque aos grupos vulneráveis. Depois da polêmica envolvendo a participação de Thammy na progapanda publicitária, as ações da empresa dispararam, ficando do topo na bolsa de valores no dia 29 passado. Além disso, várias figuras públicas acabaram demonstrando apoio a Thammy, dando mais visibilidade ao seu trabalho e sua história de amor com seu filho e sua esposa, contribuindo para uma maior conscientização da sociedade em respeito às vivências das pessoas tran. Quando se possibilita o acesso às histórias das pessoas trans, mais rapidamente a sociedade muda sua visão a respeito. Por causa dessa polêmica, Felipe Neto, um dos maiores youTuber's do mundo, com mais de 39 milhões de inscritos/as no seu canal, publicou um vídeo muito emocionante e bem elaborado, apresentando esses dados aqui citados em relação às pessoas trans. Imagine o alcance positivo que ele conseguiu!

Por mais que essas pessoas perversas se incomodem, gritem e não nos aceitem, não iremos desistir de lutar por nossos direitos, por dignidade e cidadania. Estamos ocupando e vamos ocupar muito mais ainda esses espaços, não só em comercias, mas nas artes em geral, participando de novelas, filmes, na música, na academia - produzindo conhecimento e ciências - na política e em todos os lugares onde poderemos exercer nossos talentos e contribuir para que possamos viver num mundo melhor, com mais respeito, mais amor, mais verdade e mais coragem, no combate a qualquer tipo de preconceito e ajudando a desconstruir esse sistema heterocisnormativo, patriarcal, misógino, sexista, racista e lgbtfóbico que tanto oprime mulheres, negros/as e LGBTQIA's. Sistema que nos deixa distante de viver em uma sociedade mais justa, menos desigual, mais solidária e conscientes de seus direitos.
 
Será que incomodamos tanto porque certas pessoas não estão bem com sua sexualidade, orientação sexual e/ou identidade de gênero? Será que nossa coragem de assumir publicamente quem realmente somos faz com que essas pessoas se sintam ameaçadas, frustradas e revelem suas frustrações atacando quem se sente feliz e realizado com o rompimento dessas 'normas' castradoras? Será que estamos impulsionando a evolução na sociedade, gerando a reflexão sobre o que é ser um homem e uma mulher, o que é ser um pai e uma mãe?

Que possamos analisar essas questões para que, assim, possamos conseguir nos compreender e nos aceitar melhor e, consequentemente, sentir mais empatia e amor ao próximo, principalmente àqueles que são diferentes de nós.




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