18/09/2020 as 22:38

Cooked: O quê comemos?

Água na Boca

Gastronomia
Por Jefferson Santana
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Nos últimos anos houve uma explosão de programas de culinária. É quase impossível nunca ter conversado com algum amigo sobre algum episódio de MasterChef, por exemplo, ou não ter assistido ao menos uma cena de um grande chef (ou celebridade) cozinhando na TV, como eu até já falei.

Nestes programas os ingredientes são fora do tradicional, costumam ser mais complexos e caros; as técnicas, mais elaboradas, exigem experiência na cozinha. Em breve resumo, os programas são divertidos de assistir, mas parece mais fácil e barato comprar um hambúrguer na lanchonete ao lado. Mas, em Cooked, parece mudar um pouco essa narrativa – e isso é uma coisa boa. Talvez esse programa em específico, mostre além da culinária.

Cooked é uma série documental da Netflix lançada em 2016 e baseada no livro do jornalista e pesquisador da história da culinária Michael Pollan, “Cozinhar, uma História Natural da Transformação”. Falando assim parece bastante simples. Seria mais um documentário com uma fotografia impecável como todos da Netflix, que traria fatos históricos e dados científicos, em sequência apresentaria receitas que me deixariam com água na boca, mas que eu nunca colocaria em prática – assim com tantas outras que eu anotei e depois deixei de lado. No entanto, as receitas, com passo a passo nunca chegaram. Pelo contrário, tive uma grande surpresa com uma imersão cultural, de diversas regiões e comunidades que dificilmente seriam foco em programas de TV

Inicialmente Pollan e sua equipe visitam uma comunidade da Austrália. A ideia é desvendar esse universo do ritual de caçar e cozinhar a carne e como essas práticas têm importância para a evolução dos humanos como espécie e para a constituição de sociedades e culturas. Um tema que pode ter um tom de romantização, logo dá lugar ao propósito central do episódio: discutir a carne que consumimos hoje, na sociedade moderna, e como e em que escala fazemos isso. Para o jornalista, é importante, mesmo que difícil, lidar com o fato de que quando consumimos carne, estamos consumindo, de fato, animais. Segundo ele, tentamos a todo momento nos distanciar dessa ideia e isso se dá porque tentamos não pensar sobre a origem da carne consumida, sobre a forma como esses animais são tratados até que se tornem nossa comida. 

Em seguida, se propõe a explorar a água, os hábitos alimentares começaram a ser mais diretamente questionados. Nesta, somos apresentados à cultura da Índia, mesmo que interessante, inicialmente parece inocente. Começa-se a falar de memórias afetivas em torno da culinária, sobre como cozinhar com água representa reunião e harmonia. Ao decorrer aos poucos são introduzidos temas como a falta de tempo para cozinhar e terceirização da culinária, e de forma bem sábia, a indústria alimentícia. A abordagem é sabiamente colocada ao traçar o histórico dos alimentos processados, como eles entraram em nossa dieta e quais são os problemas em torno disso. É interessante também que a série foca não só nos países desenvolvidos, maior mercado dessa indústria, mas também nos países em desenvolvimento, que têm sido a grande aposta das corporações, e nos efeitos disso nas culturas locais.

A série tem uma didática bem fácil para deixar todos ligados que a nossa alimentação, da maneira como se dá atualmente, é insustentável, nos dois últimos episódios – em que Pollan visita o Marrocos para falar sobre pães e seu processo de fermentação e o Peru para abordar os micróbios que participam da formação e transformação da nossa comida – fazem um bom trabalho em reforçar essa ideia e apresentar ainda mais argumentos para que repensemos o que comemos e como fazemos isso. Surgem também críticas ao modo de produção atual e ao seu impacto na natureza, que gera as mudanças climáticas, cujos efeitos são ainda mais severos para pequenos produtores e para a agricultura familiar. Ainda, afirmar que nem todos os germes são ruins e que, na verdade, precisamos de muitos deles para viver com qualidade, certamente é polêmico, principalmente na era dos produtos que “matam até 99% dos germes e bactérias”.

A reflexão final e talvez o ponto que ela desejava abordar desde o início, mas que vai se construindo de forma leve e inteligente é que, cozinhar, nos tempos de hoje, é acima de tudo um ato político. Em uma época em que tempo é dinheiro, em que passamos mais horas assistindo pessoas cozinhando na TV do que em nossas próprias cozinhas, preparar nossos alimentos é, para Michael Pollan, negar que as coorporações dominem mais esse aspecto de nossas vidas. Mas vai além disso. Cozinhar pode ser também uma forma de conexão com a natureza, com o fato de que é ela que nos alimenta, e não grandes indústrias. Se hoje não precisamos necessariamente cozinhar para que nos alimentemos, preparar nossas comidas é, cada vez mais, uma escolha, que faremos porque o ato de cozinhar nos faz bem e porque nos preocupamos não apenas com nossa saúde mas com a saúde de todo o planeta.

Cooked consegue depois desses episódios, ao menos, fazer pensar. Passei a pensar em pequenas coisas que eu poderia acrescentar ao meu dia-a-dia para me alimentar melhor e de forma mais natural. Ao invés de procurar receitas mirabolantes que provavelmente dariam errado para pessoas com poucas habilidades na cozinha, eu pensei em refeições simples e fáceis que eu seria capaz de cozinhar. O ponto do programa é questionar nosso consumo e tentar enxergar a comida de maneira mais consciente, o que, por si só, já é uma grande mudança e um passo importante. E por isso já vale muito a pena assistir.

 

Foto: Pinterest

Receita

Creme de Brocólis

 

Ingredientes

300 g de brócolis

1 batata picada

1 xícara (chá) de água

1/2 cebola picada

3 xícaras (chá) de leite

1 pitada de noz-moscada

1 folha de louro

sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

queijo parmesão ralado (opcional)

Modo de preparo

Lave os brócolis sob água corrente. Corte-os em pedaços bem pequenos. Coloque todos os ingredientes numa panela média e leve ao fogo baixo para cozinha por 30 minutos ou até que os legumes estejam macios. Transfira os legumes e o caldo para um liquidificador, tire a folha de louro. Bata até obter um creme homogêneo – segure bem a tampa, para evitar que o vapor empurre e a sopa vaze. Volte o creme para a panela, ajuste o sal e, se preferir, acrescente um pouco mais de água. Deixe aquecer bem e sirva a seguir com o queijo por cima. 

 

Por Jefferson Santana

jeffersonsntana@gmail.com

 

 

 




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