CIÊNCIA E TECNOLOGIA

31/07/2020 as 12:39

Congresso Sucesu 2020

Silvio Meira analisa nossa transição acelerada e urgente para uma sociedade digital

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Seminário, totalmente online, foi marcado por grandes provocações sobre sociedade líquida, futuro das pessoas e das coisas, equidade social, educacional e segurança híbrida.

Salvador, 31/07/2020 – “Há décadas em que não acontece nada. Mas, hoje vivemos semanas em que décadas acontecem“. Com essa síntese sobre o momento de inflexão em que vive a humanidade, em meio à atual crise sanitária, o professor extraordinário na Cesar.school, cientista-chefe na The Digital Strategy Company, professor emérito do Centro de Informática da UFPE, no Recife e fundador-presidente do Conselho de Administração do Porto Digital, Silvio Meira, iniciou palestra de abertura deste segundo dia do Congresso Sucesu 2020, nesta quinta-feira (30), com uma apresentação fluída em pouco mais de 30 minutos, que apenas instigou a busca por mais conhecimento.

“Se a gente olhar ao redor, será que tem alguma coisa mudando no planeta? Algo está mudando fora desse contexto dramático e terrível de Covid-19 que estamos vivendo tão intensamente? Talvez, a pandemia seja apenas um alerta global, de coisas extremamente complexas que já estão acontecendo e que virão a acontecer, em todo o mundo. E a gente, talvez, não esteja prestando tanta atenção. E esses acontecimentos passam por Billie Eilish [cantora e compositora norte-americana, que lançou no SoundCloud, em 2016, seu single de estreia, Ocean Eyes], ganhadora de 5 Grammys com menos de 18 anos de idade, tem músicas dela com mais de 1,5 bilhão de plays, como Bad Guy, ela tem 40 milhões de seguidores, só no Spotify, e ela é parte da Geração Z, uma geração de nativos digitais, que compartilham conteúdos o tempo todo, que toleram muito mais, muito mais responsáveis do que a geração anterior, ou as gerações anteriores”, contextualiza Meira.

Em seu painel, Meira trouxe com riqueza de detalhes, um tema onipresente e gerador de grandes questionamentos nos últimos meses, em todo o mundo: como a pandemia acelera nossa transição para uma sociedade digital? Um bom termômetro apontado pelo estudioso é monitorar os jovens que a revista TIME denominou “geração multi-tarefa” e que o professor da UFBA, Nelson Pretto, chama da “geração alt+tab”, mecanismo padrão de troca de foco entre abas do Windows.

Basicamente, são indivíduos ultraconectados, sempre online, seja ouvindo músicas, comunicando-se no whatsapp, twittando, zapeando em busca de assuntos interessantes na web, assistindo TV, tudo ao mesmo tempo agora. E cada vez mais cedo, imergir no universo das novas tecnologias e internet, por serem nativas no ambiente digital.

“Eles são auto-educados. Têm acesso a educação muito mais fluída do que quem veio antes. São empreendedores. Muitos dos seus ídolos O modelo de mundo deles é muito mais inclusivo e participativo. Essa galera que nasceu entre 1998 e 1996 segue assim: ao invés de sou o que tenho, sou o que faço. Em 2030, eles serão 4,2 bilhões de pessoas e vão decidir o que acontece no mundo. Esses são naturalmente digitais. E nós, analógicos, convertidos ao digital. A pandemia do novo coronavírus vai acelerar muita coisa. Ecossistemas digitais, download de futuros digitais, entender novos contextos digitais, educar-se, executar [tudo e para todos], escalar [tudo para rede] e evoluir, pois digital é fluxo”, alertou.

Transformação digital é inovação estratégica

Silvio falou também da mudança que levou o mundo a dar um salto para o digital e um freio no analógico. Com 52,1% das pessoas afirmando que o comportamento mudou para sempre. Em um cenário, sem previsões, de crescimento de 300% nas vendas de alimentos e bebidas no e-commerce brasileiro.

“A mudança estratégica funciona como um processo transformador dentro das corporações, que acabam por redefinir mercados. Nesse mundo, há uma mudança dramática na comunicação instantânea. Um aumento de 7 vezes no tráfego de dados entre 2016 a 2021. Um salto no volume de interações, de 300 pessoas conectadas por dia, em 2010, para 4.000 conectados/dia, em 2020. Em um cenário realmente inclusivo deveria sair o papel e entrar o touchscreen. Acabando com as filas e entrando o online digital. Essas filas são injustificadas. Pois nós temos boas propostas para universalização da banda larga”, pontuou.

No varejo, saem as lojas físicas. Se até a pandemia, eram abertas 10 mil lojas online por mês, depois da Covid, são 1.500 por dia, um total de 135 mil lojas. Nos EUA, e-commerce saiu de 16% para 36%, em 90 dias. São sinais dos novos e prováveis cenários de normalidade.

Para Grandes Provocações, Enormes Responsabilidades

Um painel criativo, divertido, despretensioso, e sobretudo, altamente pertinente. Assim foi a apresentação intitulada Deus Ex-Machina: robôs e outras gambiarras tecnológicas, palestra do prestigiado Luli Radfahrer, livre-docente e professor associado de Comunicação Digital da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), há 21 anos.

“Deus-ex machina nada tem a ver com religião. É um conceito baseado na Grécia antiga. Usado no teatro, como um recurso cênico que consistia na descida em cena de um deus, cuja missão era dar uma solução a um impasse vivido pelos personagens. Dito isto, temos a ideia de divindade da máquina. Onde o humano acha que a máquina não erra e devemos nos dobrar a ela. Todo mundo anda com um supercomputador no bolso. Que funciona como uma prótese, você pode viver sem ela, mas com algum desconforto. E quando vamos falar de robô, precisamos pensar que em algum momento estaremos interagindo com esses dispositivos, inevitavelmente”, analisa.

Para Luli, estamos vivendo agora, neste exato momento, uma revolução cognitiva, das infindáveis formas de compreender o humano. “É uma revolução epistemológica, no modo de como entendemos as coisas, as relações entre os sujeitos e os objetos. Nós não conseguimos mais dizer quando estamos ou não na internet. A rede está cada vez mais invisível. Não temos mais o real ou virtual, Temos uma realidade líquida, mediada. Por isso, essa revolução passa pelo ser humano. É antropocêntrica. Pois sem a interpretação humana, a análise dos dados feita pela máquina certamente será equivocada. A concepção humana é essencial”, analisa Radfahrer.

Luli Radfahrer ressalta que a internet não é uma força da natureza, onde o digital funciona como uma representação do real. “Não adianta pensar que uma máquina vai resolver tudo para o homem. Uma crise como a do coronavírus serve para atentarmos sobre o que realmente é importante. E a mudança que logo vem será enorme. Transformará indústrias, pessoas, sociedades inteiras. Inteligente não pode representar passivo. O cidadão não pode ficar à mercê da estrutura. O estudo em Tecnologia da Informação não pode ser central, precisa ser orgânico.

O professor argumenta ainda que não vivemos mais em democracia, mas em um ambiente regulado por dados e métricas.

“Pois quando as pessoas forem ensinadas e empoderadas no sentido de que cada um pode ser empreendedor, quem vai querer ser empregado. As mudanças Vão acabar com emprego? vão sim. Várias funções passarão a ser subjetivas, não vamos mais ter porteiro, ascensorista, pois são atividades que não agregam valor aos humanos. A ideia ocidental de empreendedorismo é ridícula. A chance de você se tornar um Steve Jobs ou Bill Gates da vida é a mesma de um camponês da idade média em se tornar rei. Quase nula. Portanto, o que precisamos é compartilhar conhecimento, empoderar a nós mesmos e aos outros” finalizou Luli.




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