20/08/2020 as 12:00

O fundamentalismo lunático e o retrato da crueldade.

Na semana passada, o Brasil foi palco de uma terrível crueldade, dentre tantas que estamos vivenciando nos últimos tempos.

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
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Na semana passada, o Brasil foi palco de uma terrível crueldade, dentre tantas que estamos vivenciando nos últimos tempos. Tudo por causa de uma decisão judicial que autorizou a suspensão da gravidez de uma menininha que foi estuprada sistematicamente, dos seis aos dez anos, pelo seu tio.

Sentindo dores abdominais, essa criança foi levada ao hospital. Os agentes de saúde suspeitaram da gravidez, fizeram o teste, que deu positivo. É uma criança indefesa, com um histórico de sofrimento terrível por causa das violências sexuais que sofreu durante quatro anos, da morte de sua mãe e da prisão do seu pai, tendo sido obrigada a conviver com seu torturador.

Por exercer seu direito à interrupção da gravidez causada pelo estupro, ela viveu outra forma de tortura por parte de fundamentalistas perversos e de quem ocupa cargos no Estado brasileiro, contrários ao procedimento que tenta amenizar os traumas sofridos. Pessoas que usam dogmas religiosos castradores dizendo que estão a favor da vida, mas na realidade estão mostrando sua monstruosidade e ignorância.

Mais uma vez, ela foi vítima de outra tortura por parte de fanáticos que ocupam espaços em serviços hospitalares. Depois da espera da decisão judicial, o hospital da sua cidade, especializado nesses casos, se negou a fazer o procedimento. Por conta deste fundamentalismo, ela foi obrigada a viajar pra outra cidade, num outro Estado, para ter o direto a viver.
Chegando no novo local, o martírio da criança continua. Um grupo de pessoas enlouquecidas, usando um discurso perverso e desumano, foi até a porta do hospital impedir o procedimento, que já tinha autorização legal e judicial, porque a criança corria risco de vida com a gravidez tão precoce. A ida desses fundamentalistas religiosos e de alguns parlamentares fanáticos foi possível pela publicação dos dados pessoais da criança e do local do novo hospital, o que deveria ter sigilo judicial. Essa divulgação foi feita por uma bolsonarista, que recentemente foi presa por fazer parte de um grupo criminoso que atenta contra a democracia e incitou a destruição de poderes da república com fogos de artifícios.

Quem repassou esses dados pra ela? Será que pessoas ligadas ao governo estão também envolvidas na divulgação dessas informações sigilosas? Precisamos dessas respostas para sabermos quem está por trás desses fatos.
Isso ameaça nossas vidas! Nossos dados também podem ser vazados de acordo com a conveniência de quem está no poder.

Esse triste episódio envolvendo essa criança que já passou por tanto sofrimento na sua vida tão curta acabou provocando alguns debates sobre a importância da educação sexual e sobre a descriminalização e legalização do aborto no Brasil.

Educação sexual é muito importante para que casos como esse possam ser evitados. As crianças e adolescentes vão ser ensinados que tocar em certas partes do seu corpo é um abuso e violência sexual, vão entender que o estupro é um crime. A maioria das crianças, jovens e até mesmo adultos não percebem o abuso sexual porque ainda é um grande tabu na família, na escola e na sociedade em geral falar sobre sexualidade. Mas educação sexual é justamente isso: ensinar que abuso sexual e estupro são crimes, bem como ajudar na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, prevenindo também gravidez precoce e morte.

Mas a crueldade e a ignorância dessas pessoas perversas é tão grande que elas difundem que falar de sexualidade, orientação sexual e identidade de gênero vai incentivar as práticas sexuais e despertar a homossexualidade ou a transgeneridade. A ignorância, casada com a maldade e distorção da realidade, causa violências, prejuízos e ameaça a nossa democracia, já tão frágil.

Ao contrário, a Educação para a sexualidade ajuda a prevenir abusos e violências às crianças, na maioria das vezes dentro do seio familiar. Também combate o suicídio entre adolescentes. Será que essas pessoas contrárias a essas discussões não seriam os/as potenciais abusadores/as e não querem ser descobertos/as?

Outra discussão importante que acabou sendo veiculada na mídia foi o debate sobre a descriminalização e legalização do aborto. Muitas pessoas contrárias, como foi no caso da criança do Espírito Santo, usam o discurso falacioso de que estão a favor da vida. Mas com qual vida essas pessoas diabólicas estão realmente preocupadas? A de um embrião que foi gerado depois de 4 anos de tortura e não a de uma criança que já passou por tanto sofrimento. Um bando de lunáticos vai à porta do hospital culpabilizar a menininha e chamá-la de assassina, bem como, toda equipe médica que está fazendo um procedimento pra salvar a vida dessa criança e evitar mais sofrimento. A discussão não é uma questão moral, se é certo ou não abortar. É sobre o direito da mulher, nesse caso uma criança, decidir se quer ou não gerar um ser indesejado ou fruto de violência sexual. Essas condenações remetem a uma necessidade macabra de culpabilizar a mulher, de demonizar a prática sexual, já que esses/as fundamentalistas têm uma enorme predisposição em punir e condenar mulheres. A legislação brasileira precisa urgentemente rever a criminalização de mulheres e criar políticas públicas de redução de danos e garantia de suas vidas. Tomar essa decisão é profundamente doloroso. Além disso, quando a mulher é pobre, e na sua grande maioria negra, corre o risco de morte por precisar se submeter ao aborto realizado de forma perigosa e sem assistência médica. Enquanto isso, as que têm condição financeira pagam clínicas médicas, tendo toda assistência e estrutura pra fazer o procedimento com segurança. Outra questão muito importante é o discurso falacioso de que discriminar e legalizar vai aumentar o número de abortos. No entanto, nos países que legalizaram houve uma diminuição dos casos, porque o fato de ter um acolhimento psicológico e de assistência social, protolocos necessário para a legalização, deu estruturada para que muitas mulheres decidissem prosseguir com a gravidez. Além disso, reduziu-se o índice de mortalidade, já que o aborto deixou de ser realizado de forma insegura, com risco de infecções que podem ter consequências danosas e até a perda da vida. Então, essa questão deveria ser um caso de saúde pública e não judicial.

Não podemos mais aceitar essa postura monstruosa em relação à educação sexual e aos direitos reprodutivos da mulher. Precisamos avançar nessas questões através de uma mudança profunda em nossa educação. Outra frente é a de trabalhar em legislações que garantam proteção da vida de crianças, adolescentes e mulheres através de informações de uma política de educação e diversidade sexual para conscientizar sobre essas violências e na prevenção de gravidez indesejada e infecções de doenças sexualmente transmissíveis. É necessário o desenvolvimento de uma política efetiva de controle de natalidade, desenvolvendo uma maior conscietizacão da sociedade sobre questões que envolvam a sexualidade, visando diminuir os casos de violência sofridas por crianças, adolescentes e mulheres. O Brasil é campeão nos números de casos de violência contra mulheres, crianças e adolescentes e LGBTQIA'S. Essas pessoas vivem numa enorme situação de vulnerabilidade social, e essa violência, em regra, acontece dentro do ambiente doméstico. Triste, terrível e cruel realidade!




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